O Misantropo Enjaulado

O optimismo é uma preguiça do espírito. E. Herriot

Saturday, November 04, 2006

O Corpo e o Espírito

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O Amigo Jansenista é uma Mina. E uma mina de ouro para um bloguista medíocre como eu, atulhado de doçaria e em busca de inspiração. Nada O obrigava a explicar-se sobre a referência à surdez de Maurras; mas fê-lo, pelo que Lhe estou grato. Acrescentará, no entanto, a justiça de confiar em que não acreditei, por um instante, na hipótese de estar a censurar uma deficiência, pelo simples facto de existir. O meu reparo amigo era ao emprego dessa diminuição como imagem, que me não pareceu feliz. E como teve a bondade de trazer à colação a célebre reunião e o confronto Unamuno-Astray, vou abusar da Sua paciência e dizer um par de coisas sobre o tema.
Gosto de ler Unamuno. E, apesar de algum apartamento em matária de Religião, nem era a ideologia que me poderia separar dele. Sabe bem que até à famosa altercação, o Reitor de Salamanca era apoiante fervoroso do Alziamento, cujos responsáveis saudava como «os Heróis salvadores do Espírito».
Que se passou então?
Passou-se que o glorioso general Millán Astray, num contexto de combate, se pronunciou contra os intelectuais que empanam o espírito lutador e com o seu famoso «Viva la Muerte» saudou a disponibilidade para o sacrifício dos que estivessem dispostos a dar a vida por um ideal. Não falou contra todos os intelectuais e tinha legitimidade para o fazer, porque ele próprio era um deles; conferencista notável, docente universitário de quase uma dezena de cadeiras diferentes, estudioso e entusiasta do Bushido. Perdera partes de si em luta pela Pátria. Era um Deficiente. A resposta de D. Miguel, todavia, foi muito deficiente. Porque, ao contrário Daquele a quem se opunha, não tinha uma deformidade, ou amputação, visível e se permitiu apontar as que eram evidentes no Militar para Lhe traçar o carácter. Sempre prezei mais os que invocam os defeitos próprios e ignoram os de outrem, maxime na esfera física, do que os contrários. E ao cair em tão fácil forma de ataque mostrou um tacanho espírito de corpo, não dando corpo a um grande espírito. Por detrás das feridas de guerra estava a generosidade da dádiva de si e o arrojo do afrontamento dos que ameaçavam os Seus. Na crítica soez que chama a um amputado «aleijado», não vejo mais do que o egoísmo de quem se preza mais do que ao sacrifício. Numa coisa tinha o orador razão - em chamar insensato ao mobilizador grito do Fundador da Legion. Mas no sentido em que o bom senso é incompatível com a grandeza e o serviço e aconselha a fuga e o furtar-se a responsabilidades que impliquem o risco da própria pele.
*
Acerca do desprezo que refere de alguns maurrasianos em relação ao nosso País, não sei quais os casos concretos que refere. Mas lembro que Mestre Maurras tinha como derradeiro bastião do Ocidente o Portugal de Salazar, a quem, de alguma forma, fez herdeiro espiritual, com o incentivo para «aguentar». E que dois dos maiores Amigos do nosso País, no pós-Guerra, eram seguidores do Escritor de Martigues, Massis e Ploncard d´Assac.
E o comportamento dos simpatizantes durante a Ocupação, com alguma disputa de influência em Vichy, foi sempre no da dignidade de «La France Seulle», não o do colaboracionismo, como escreveu o Miguel Castello-Branco. Aliás, o facto de o "tribunal" que julgou o Velho Chefe da A.F. ter reconhecido «circunstâncias atenuantes» é por si só revelador, no uso da época. Nunca houve e continuava a não haver tão grande inimigo da Alemanha, apesar de existirem alguns de força equivalente na oposição ao regime que a regia. Mas também se sentia desgostoso com o que considerava a "traição britânica". Para o que tinha boas razões, reconhece este anglófilo que Lhe fala.
Abraço.

13 Comments:

  • At 3:37 PM, Anonymous Anonymous said…

    Muito bem.

     
  • At 3:46 PM, Blogger O Jansenista said…

    Point taken (ainda que possa adivinhar que tomo o partido de Unamuno, por um lado, e não sou tão indulgente com Maurras, por outro). Desconhecia a foto, e se bem me lembro a Sra. presente é a Dona Carmen Polo.

     
  • At 4:36 PM, Blogger JSarto said…

    This comment has been removed by a blog administrator.

     
  • At 4:38 PM, Blogger JSarto said…

    É Dona Carmen Polo que saiu da referida sessão na reitoria da Universidade de Salamanca de braço dado a Unamuno, de forma a protegê-lo de alguns legionários e falangistas mais exaltados que legitimamente não apreciaram o torpe insulto dirigido a Astray.

     
  • At 4:45 PM, Anonymous çamorano said…

    Millán Astray, amigo de Teotonio Pereira........La idea de Paulo conecta con el dicho de Pitágoras: cria la malva pero no la comas (se indulgente con los demás, pero no contigo mismo....)

     
  • At 6:40 PM, Blogger O Jansenista said…

    Esqueci-me de elogiar a sua lúcida observação: "Numa coisa tinha o orador razão - em chamar insensato ao mobilizador grito do Fundador da Legion". Outra coisa não seria de esperar da parte de quem coerentemente, como o Confrade, se reclama nesta hora um combatente «Pela Vida»: impossível ignorar o obsceno que se contém no paradoxal apelo à Cultura da Morte que Millan Astray formulou.

     
  • At 7:08 PM, Anonymous çamorano said…

    Aunque esté fuera de cuestión, una recomendación para los cultísimos amantes de la Historia de Portugal que concurren en este blog: http://windyskies.blogspot.com, post de 27 de agosto de 2006 sobre la Goa Portuguesa......

     
  • At 7:47 PM, Blogger Paulo Cunha Porto said…

    Sempre generoso, Meu Caro Je Maintiendrai. Mas sabe bem lê-Lo.

    Atenção, Meu Caro Jansenista, Unamuno não deixa de ser lido com gosto por mim, por causa deste episódio. E quanto a Maurras, concedo que o seu intelecto poderosíssimo encontrava o contraponto numa dureza nem sempre muito estimável para com os adversários.
    Quanto à D. Carmen, o JSarto e o Çamorano já responderam. E Este é um especialista na família, como demonstra a boca no "post" anterior, sobre a editora.

    Caro JSarto:
    Era o tempo em que a Juventude se rebelava contra ideias dos velhos, consideradas mortas, o que demonstra as andanças da Roda da Fortuna das ideologias. Quanto à forma, lastimo-a, pelo que disse. Como também o fundo, bem vistas as coisas.

    Meu Caro Çamorano
    Belíssimo lema esse, que me soa familiar, tal como a origem do Mundo Helénico, embora não lhe lembrasse a autoria, até que me refrescaste a memória.

    Sem rejeitar o que diz, Caro Jansenista, distinguiria entre a morte que se reserva para si, como risco decorrente da luta por valores mais elevados e a que se determina para inocentes, por egoísmo ou comodismo. Mas eu não soltaria tal brado, de qualquer forma. A morte é coisa demasiado séria e deve ser reclamada apenas para os mais repugnantes dos culpados.

    Obrigadíssimo, Çamorano Amigo. Seguirei a recomendação à risca.
    Abraços a Todos. Ah e comprei esta semana um livro, creio que dum genro do Caudilho, em castelhano, «A Minha Vida entre os Franco». Não sei quando o encetarei, mas...

     
  • At 9:03 PM, Anonymous çamorano said…

    Amigo Paulo: vida interesante, la de don Jaime de Mora y Aragón, hermano de la reina Fabiola de Bélgica......

     
  • At 12:14 PM, Blogger Paulo Cunha Porto said…

    Se comungar da Santidade da da sua Real Irmã...
    Obrigado pela "dica", Caro Çamorano.

     
  • At 2:18 AM, Blogger António Viriato said…

    Caro Paulo,

    Sou, há muito, afeiçoado a Miguel de Unamuno, cuja obra conheço um pouco, desde que, numa tarde de um adusto Agosto de 1985, lhe procurei, na Livraria Cervantes, de Salamanca, o seu amargo livro de crónicas de viagens «Por Tierras de Portugal y de España», que mais tarde a Assírio e Alvim haveria de editar em português.

    É verdade que algo tergiversou naqueles tempos loucos da Espanha em que viveu, mas julgo que fez bem em opor-se àquela absurda exaltação da Morte, de Astray, ainda que o tenha feito, com alusões infelizes às mazelas guerreiras do seu interlocutor.

    Unamuno era uma personalidade complexa, muito atormentada pelas questões filosófico-religiosas e acho que, no lá no fundo, permaneceu sempre um cristão, ainda que torturado, desesperado, pela sua falta de fé, como bem nos retratou naquele seu San Manuel Bueno, mártir, talvez uma espécie de seu alter-ego.

    Além do mais, para nós, e apesar de nos ter chamado povo triste, «pueblo suicida», foi um dos poucos intelectuais espanhóis que verdadeiramente se interessou e amou as coisas portuguesas, que de resto conhecia bem, porque aqui viaja bastante, a visitar os seus amigos Pascoaes, Laranjeira, Junqueiro, Eugénio de Castro, cujas obras apreciava e discutia.

    Para Unamuno era outro o Mercado Ibérico. Creio que não terá deixado muitos seguidores.

    Um abraço e boa semana de trabalho.

     
  • At 12:04 PM, Blogger Paulo Cunha Porto said…

    Meu Caro António Viriato:
    Por essas e por outras continua Don Miguel a fazer parte das minhas leituras, como disse.
    Penso que foi uma reacção à flor da pele contra um grito de mobilização e que terá enfermado por uma cedência particularista atentatória da unidade, como deixei hoje expresso em desenvolvimento no «Jansenista».
    Abraço.

     
  • At 2:36 PM, Anonymous Anonymous said…

    T'ou abismado com tanta confusão!
    Particularismos, frases soltas, alhos com bugalhos...e todo visto com os tomates sentados à frente do monitor!
    Felizmente que o Paulo tentou (disse, tentou) "aclarar" a confusão.
    Eu ignorante me confesso.

    Legionário

     

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