O Misantropo Enjaulado

O optimismo é uma preguiça do espírito. E. Herriot

Monday, November 13, 2006

Os Espectadores Infames

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Esgotante, esta Segunda Feira, sempre o pior dos dias, mas ainda com tempo de Vos dar conta da minha indignação pela leitura no «PÚBLICO» da informação de que, na Índia, estreará, já em 2 de Dezembro, a peça «SADDAM NA FORCA». Sabe-se como não simpatizo com o condenado e como sou menos caridoso do que muitos, no sentido de não o poupar à execução, embora defenda que lhe deva ser facultada uma forma honrosa de morrer. Mas fazer da antecipação de um enforcamento aprazado motivo de diversão é o pior da humanidade, já que nem o sentimento homófono patenteia. E não se diga que a morte não tem na Índia o sentido de fim, mesmo numa acepção terrena. A procura de transformar em gáudio dos assistentes uma execução joga, mais do que evidentemente, com a inexistência do respeito. Teatralizar mortes públicas do Passado é uma fatalidade, creio. Infringir o período sagrado entre uma sentença e a sua efectivação não tem desculpa.
A fotografia, excelente e pioneira, é de Roger Fenton, «O Vale da Sombra da Morte».

9 Comments:

  • At 11:25 PM, Blogger LFM said…

    Lamentável.

     
  • At 11:34 PM, Anonymous Anonymous said…

    será uma falta de sentido de oportunidade?

     
  • At 12:29 AM, Anonymous Bic Laranja said…

    Desculpe-me só comentar a paisagem (anterior): faz falta uma Abbey; dispensa-se eventuais cabinas telefónicas... Cumpts.

     
  • At 10:01 AM, Anonymous Carlos Portugal said…

    Caríssimo: lembram-me as também infames «tricoteuses» que assistiam, ávidas, às execuções na guilhotina, durante «la Terreur»...

    Abraço

     
  • At 10:04 AM, Blogger Paulo Cunha Porto said…

    Meu Caro LFM:
    É a aversão elevada ao expoente do total achincalhamento. Caxemira não justifica isto.

    Querida Teresa:
    Penso que é simplesmente o ódio atávico entre as duas comunidades da antiga Índia Britânica. E o aproveitamento da oportunidade para gozar um momento do inimigo com algo de trágico.

    Meu Caro Bic Laranja:
    Hihihihihihi. A isso se chama não perder o fio. Cabinas para quê, com efeito, se a chuva já passou?
    Beijinhos e abraços.

     
  • At 10:09 AM, Blogger Paulo Cunha Porto said…

    Meu Caro Carlos Portugal:
    Não foi nada que não me tivesse passado pela cabeça, mas considero este caso ainda pior, no que toca a asência de consideração. Sabe-se como as execuções públicas eram um espectáculo disputado. Agora, degradar o tablado do patíbulo para a condição antecipada e necessariamente falsa do espaço cénico, parece-me total inexistência do estofo da dignidade.
    Abraço.

     
  • At 12:00 PM, Anonymous Paulo Perestrello said…

    Caro Paulo Cunha Porto,

    Indigno.
    Uma das muitas glórias da Europa humanista, que começou cedo e bem no séc.XIX, foi a abolição da pena de morte, em que Portugal foi pioneiro.
    Não tínhamos uma folha brilhante, a esse respeito, longe disso, basta ver como as execuções eram populares e disputadíssimos os melhores (?) lugares,mas emendámos a mão nessa altura.
    Mais estranho ainda a passividade activa dos USA, que aplaudiram a decisão. Quando foi dos massacres cometidos por Saddaam, com gases letais fornecidos pelos USA, não se ouviu da boca dos USA uma só palavra, a não ser pela voz de Noam Chomsky.

    A fotografia do aperto de mão entre Rumsfeld e Saddam tornou-se lendária.

    Por isso este julgamento será julgado pela História, independentemente do facto de Sadaam ser de facto um autocrata criminoso.
    E os USA não vão sair de cara levantada desse julgamento.



    Para finalizar, se me permite (e peço desculpa por não ter o talento do laconismo, o que faz com que me alongue nos SMS, entre outras coisas) , só uma nota mais pessoal em relação a esta excelente fotografia.

    Nas horas de ponta, a tentar entrar numa das circulares, o Vale da Morte, nesta fotografia cheia da estranha beleza das fotografias a sépia, parece um objecto de desejo. Grazie mille, por isso.

    Quem tem algumas tendências eremíticas, como eu, gosta destes locais, sem nada de construido, com um grau zero da presença humana.

    Acho que as idas aos desertos verdadeiros são fecundas, sobretudo em tempos destes desertos hiperpovoados, onde os prédios da modernidade e o trânsito são alucinações que perduram tempo demais.

    Cumprimentos,

    P.Perestrello.

    (da Brigada Antimodernista da Montanha Aquática, Ilha da Madeira e Sintra)

     
  • At 2:08 PM, Blogger JSM said…

    Caro Paulo Cunha Porto
    Hoje para manifestar discordãncia de princípio, com decerto imagina.
    Repito o que disse noutra caixa de comentários com quem temos afinidades: a representação política não pode ser enforcada sem enforcar primeiro os representados, os amigos e os ex-amigos, os que reconheceram e foram reconhecidos, e nestas condições não há corda que chegue!
    O aproveitamento da morte seja qual fôr o fim é uma indignidade sem limite, mas não deve admirar enquanto prosseguir o espectáculo do horror mascarado de justiça.
    Pobre justiça. Como dizia Simone Veil - 'essa eterna desertora do campo dos vencedores'.
    Um abraço para reflexão.

     
  • At 7:06 PM, Blogger Paulo Cunha Porto said…

    Meu Caro Paulo Perestrello:
    não sou hostil à pena de morte quando os casos sejam de tal gravidade que evidenciem a absoluta desumanidade do que foi julgado.
    No caso de Saddam indigna-me a farsa do julgamento, que nada teve que o pudesse sequer fazer passar, vagamente, por tal. E, por todas as razões que enumera, também o cinismo da Política Internacional, em que os vencidos e vencedores não têm Passado, salvo a partir do momento em que se confrontaram. Mais valia que o eliminassem sem simulacros justiceiros.
    Mas aqui ainda há um salto na indignidade, que é o de ir gargalhando e aplaudindo face à encenação de uma morte que se supõe que irá ser em breve consumada.
    Não consigo mandar para baixo esta espinha.

    Por isso digo, Meu Caro JSM, que se deveria atender ao pedido do sentenciado e conceder-lhe a execução por fuzilamento, deixando claro que era um problema político e não a desonra do crime comum, que, como diz muitíssimo bem, pode contaminar os juízes e todo um Povo.
    Abraços a Ambos.

     

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