O Misantropo Enjaulado

O optimismo é uma preguiça do espírito. E. Herriot

Sunday, October 15, 2006

Lazeres Indigentes



Na identificação dos hábitos lisboetas que ajudem a desvendar o carácter nacional é costume lamentar o ocaso dos cafés, como sedes de tertúlia onde pontos de vista eram trocados. Encontrei, contudo, num livrinho de Carlos de Moura Cabral a ideia de que, no fim do Século XIX, ao contrário de Paris, esses centros teriam sido substituídos, no tocante às elites intermédias, pelos portais de estabelecimentos onde se plantavam os conversadores. Transcrevo:
«o do Gomes
Litteratos janotas. Edições e toilettes de luxo. Estylo e sobrecasacas dernier mot. Verlaine e Amieiro. Escola pratica de addidos de embaixada. Cumprimentos castos de donzellinhas e miradas provocantes de peccadoras... Bem com Deus e com o Diabo. Abrem-se-lhes as portas de todos os salões, só a Academia lhes recuza egual gentileza. De resto, do alto do seu pedestal (ha um degrau á porta do Gomes) cada um, de per si, confessa o seu desdem pelo templo da Immortalidade!
*
ao lado do Mourão
A caminho das caixas de reformas...
Requebros disfarçados para as divindades que passam. Graves conversações quando os escutam. Amenidades gaiatas quando segredam. Cupidáceos por dentro e conselheiraes por fóra. Quem os vê não os leva presos, mas pode ficar preso a alguma proposta de amor. Argumento convincente... dio del oro. Divisa: discrição. O dandysmo das roupas supre a frescura das fórmas... E teem publico!
*
o da Havaneza
Publico vário. Politicos de volta das camaras, brazileiros de volta do Pará, elegantes de volta da Avenida. Ministerio, cambio e amor, eis o echo de todas as palestras. Mas é o politico que ali predomina. E o mais eloquente, o mais irado, o que mais gesticula e o que mais berra... é aquele que nunca abriu o bico no parlamento. Aviso aos da província que veem a Lisboa render graças a Vénus ou ao sr. João Franco: como vitrine é das mais respeitáveis. Uma semana de Havaneza constitue uma apresentação.
*
o da Monaco
fama de má lingua. Huum... Intrigas.
Especialidade: escandalos de bastidores, batalhas dos galinheiros, cancans de redacções. É d´ali que sae a cotação d´um litterato ou d´um artista; quem está na alta ou quem está na baixa... Qual o poeta que se conserva firme, o dramaturgo que nos offerece as variantes do exterior hespanhol, tão depressa a 78 como a 50 1/8, o actor que vae perdendo dois ou três pontos no mercado, o jornalista que vive uma vidinha arrastada, toda ella ficticia, e os cabots que fazem grande estardalhaço, como as minas de ouro e teem em perspectiva, para breve, um krack medonho... aquilo não é estanco, é uma Bolsa onde cada um joga... a piada que tem.
»
Sinal bem incontestável das maleitas das forças vivas da Nação, que preferem ficar na portada, onde nem se sai nem entra, em vez de aplicar diligência. E, sobretudo, fugindo das mesas, que lembram os locais e ónus das decisões. À espera de resolver a vidita da forma mais fácil, sem um esforço por melhorar a da Colectividade.
No mais o livro é excelente. Até dá conta de que na Capital tão Fin de Siécle já se importavam cocottes da Hungria! Qual Viena!

3 Comments:

  • At 4:25 PM, Blogger Je maintiendrai said…

    Oh Justiça! Oh Céus! Oh Bondade Divina! Só o Misantropo é que abicha coisas destas!?

     
  • At 6:33 PM, Blogger António Viriato said…

    Meu Caro Amigo,

    Confesso a minha enorme admiração por tanta e tão variada produção, sem esquecer alguns quadros de vistosas figuras que por aqui vejo generosamente semeados.

    Quanto aos cafés das tertúlias, julgo que praticamente terminaram, para nossa grande mágoa, os que ainda os conhecemos, como escola de iniciação e formação cívico-cultural.

    Não creio que os blogues compensem o seu desparecimento, porque nada substitui a presença física na confrontação das opiniões, no esclarecimento das questões e na consolidação das amizades.

    Os bares tampouco os podem substituir, pelo excesso de ruído ambiente que impede a serena discussão de ideias.

    Enfim, pode ser que ainda renasçam, quando a mão invisível do Mercado der pela sua falta...

    Um abraço e nova semana produtiva, voto, de resto, escusado, pela exuberãncia a que nos tem acostumado.

     
  • At 6:55 PM, Blogger Paulo Cunha Porto said…

    Meu Caro Je Maintiendrai:
    Vindo essa de quem nos tem contemplado com tanta pérola, caso é para sorrir. Dito isto, tenho de reconhecer a raridade do livro e o prazer que me deu a leitura desta pequena panorâmica, que não resisti a comartilhar com os Amigos.

    Meu Caro António Viriato.
    Não há motivos para ser admirado, senão porfia incessante no intento de atrair Interlocutores como o Meu Prezadíssimo Amigo a este espaço. Pode-se , julgo, fazer uma tertúlia blogosférica e honro-me de, informalmente, ter constituído uma com Brilhantes Espíritos que visitam esta jaula sem valia. Posto o que não me custa dar-Lhe razão, quando proclama a insubstituibilidade do contacto presencial, pois o que se ganha no escrito em certeza das afirmações, com a documentação que a estante ao lado proporciona, perde-se ao não alcançar a percepção do Indivíduo na sua magnitude vivencial. Seja como for, duas vias muito mais estimáveis do que as do encosto à entrada de uma casa comercial, a esmolar atenção...
    Uma óptima semana, igualmente, grato, como sempre pela Visita com que me distinguiu.
    Abraços a Ambos.

     

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