O Misantropo Enjaulado

O optimismo é uma preguiça do espírito. E. Herriot

Tuesday, July 04, 2006

Da Preferência

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Aguilhoado por um post do BOS e com a involuntária colaboração de Vasco Pulido Valente, comecei a matutar no que este revelou, acerca de Paiva Couceiro ter, em certa altura, defendido o abandono de Moçambique, compensando-o com a povoação de Angola por população portuguesa ida da Metrópole. Devo dizer que ainda não li a biografia do Comandante escrita por VPV, pelo que não posso sobre ela pronunciar-me. E que não tinha noção dessa defesa de prescindir dos territórios africanos do Índico, de que, no entanto, não duvido. Pus-me então a pensar em como ela contenderia com a biografia anterior do Heroi de África e entretive-me na proveitosa leitura deste livro, que recomendo. Tudo somado, não é estranho que Couceiro haja aceite a retirada de Moçambique, quando foi lá que decorreu o seu maior feito de armas, no combate de Magul, e onde, para defender a nossa presença nessa colónia, sendo ajudante de campo de António Ennes, deu uma valente surra em três correspondentes estrangeiros que nos difamavam?
Penso que há que atentar no resto da sua biografia e na própria natureza das duas possessões. O Grande Homem começara a sua experiência africana em Angola e dela viria, noutra altura, a ser governador. Unia-o pois ao território um sentimento muito forte. Por outro lado, estaria talvez marcado quer pela influência estrangeira e hostil no Sul de Moçambique, quer pelo falhanço de unir as costas africanas portuguesas Leste e Ocidental, em cujo êxito se tinha empenhado, numa acção meritória de ocupação, através da ligação à Coroa Portuguesa de vários chefes locais, esforço desbaratado pela conhecida questão do Mapa Cor de Rosa.
Mas creio que dos seus relatórios e dos livros que publicou se conclui também que tinha presente o diferente valor das duas dependências: Angola, riquíssima em matérias-primas e culturas, com um peso importante nas receitas portuguesas. Moçambique, sobretudo como acesso ao mar, com excelentes portos, das zonas interiores do Cntinente Negro. Daí que também haja defendido uma diferente ocupação de Angola, pela deslocação de europeus para lá, «de modo a torná-la mais uma província, semelhante ao Minho». Como se vê, não andava tão longe da concepção Salazarista de integração. A maior divergência talvez residisse na medida da transferência populacional...

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2 Comments:

  • At 8:15 PM, Anonymous Anonymous said…

    Foi um homem bravo, leal e dedicado e dos poucos que se bateram pela monarquia. A sua primeira grande campanha africana, onde se bateu com escassos meios, foi na Humpata, Angola, em 1889, apenas com 28 anos, revelando, então, a fibra que, em 1896, levaria à sua proclamação de Benemérito da Pátria. A sua clarividência pela escolha de Angola como âncora da nossa expansão teve um seguidor: Norton de Matos, homem também de rasgados horizontes, que lhe sucederia no Governo Geral de Angola três anos depois. Mas os tempos eram de instabilidade política, de vacas magras e, já nessa altura, os políticos constituíam o elo de menor qualidade, embora, como agora, muito ciosos da sua precedência protocular. Enfim, o que sucedeu depois, feriu, e de que maneira, a memória destes e doutros valentes que por lá se bateram. A miséria que por lá se vive, apesar da imensa riqueza daquela terra, não nos deixa quaisquer dúvidas.

     
  • At 9:04 PM, Blogger Paulo Cunha Porto said…

    Tudo isso é verdade, Caro Anónimo. E quanto a Norton de Matos, se é certo que a sua governação foi polémica e com acusações de exceder os poderes que tinha e até de aproveitamento pessoal, na metrópole como na Colónia, foi no entanto o escolhido pelo Filho de Henrique Paiva Couceiro para prefaciar a reedição do livro sobre Angola que o Pai escrevera, o que fez com grande dignidade, reconhecendo a obra e passando por cima de divergências políticas. Tenho grande dificuldade em avaliar os desempenhos angolanos de Norton, quer por me faltar conhecimento de documentação essencial, quer por me não inspirarem confiança os testemunhos de alguns dos seus acusadores, como Cunha Leal. Mas no que ao caso interessa, há unanimidade sobre a acção deste outro grande Militar, que não conhecia a palavra rendição.

     

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