O Misantropo Enjaulado

O optimismo é uma preguiça do espírito. E. Herriot

Sunday, March 12, 2006

Leitura Matinal -293

O tempo que devia ser de repouso acaba por ser o dos balanços que
levam a outras preocupações. Meditando sobre o trajecto, surge o assalto pelas figuras do que não mereceu a atenção. Essas entradas predispostas a que não se correspondeu, pela avaliação deficiente que é, na mente humana, a causa do interesse despertado. As desilusões acumuladas dão agora a medida do que se perdeu. Despertos pelos ruídos da noite que aumentam a capacidade dos sentidos,
vê-se agora as quimeras como que ao alcance da mão, muito por as confrontar com a recordação de todas as oportunidades e alternativas que foram perdidas. Satisfeito pela desculpa que considera ser o cumprimento da parte de humanidade, se não de masculinidade, que lhe cabe, o cansado
caminhante vira agora os olhos para o Futuro que pensa ao seu alcance. Que é vastíssimo, compensatoriamente anunciado pelos arautos dos eleitos que prometem aos que sofreram a falta de concretização das aspirações um manancial de possibilidades fascinantes, dependentes, sugerem, da receptividade aos estímulos
envolventes.
É a nova utopia. Mas sabe-se que enquanto a psique operar, haverá sempre uma. Doravante, a atracção dos fogos remotos, tão perigosos por atraírem como por queimarem, transmitem o novo absorvente enigma da insatisfação humana, só resolúvel pela truística revelação de que aquilo que se quer e satisfaz, em simultâneo, não depende de condição cerrada ou escancarada, mas da fechadura de cuja chave se disponha.
De Johannes Bobrowski, graças a João
Barrento:

O VIANDANTE

Cai a noite,
o rio cheio de ecos,
o respirar pesado das florestas,
o céu atravessado pelo voo
gritante de pássaros, praias
de trevas, velhas,
e lá em cima os fogos das estrelas.

Vivi como vive um homem,
esqueci-me de contar os portões,
os abertos. Aos fechados
bati.

Todos os portões estão abertos.
O arauto está de braços
abertos. Chega-te à mesa!
Fala: as florestas ecoam,
o rio ofegante é cortado
pelo fogo dos peixes, o céu
treme de fogos.


Composto com ««Para lá do Portão», de Allayn Stevens,
«Por Entre o Fogo Para Atingir as Estrelas», de Don Dixon,
uma representação do Arauto da Meia-Noite e «Paisagem
com Estrelas», de Henri-Edmond Cross.

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