O Misantropo Enjaulado

O optimismo é uma preguiça do espírito. E. Herriot

Tuesday, October 25, 2005

Leitura Matinal -159

Quando a deformação das características próprias deixa
de ter origem numa preocupação altruísta de humildade,
ou num reflexo de defesa prevendo juízos alheios e pessoais
descontentamentos, acontece muita vez que, martelada
repetidamente, produza um obcecado pela desistência, em
patológica contenção lamentosa que entreabre para vindouros
idealizados o preenchimento compensatório da insuficiência
anímica que, artificialmente, se criou.
É um comodismo que se verifica, seja nas vidas menos seguidas,
como fonte do deixar andar que só o laconismo atenua, ou, nos
escritos, em proclamações dum pessimismo de reclame que, por
muito coincidente que possa ser com os sentimentos autênticos,
joga necessariamente com estados de espírito do leitor que se
sinta partícipe desse encolher de ombros prestigiado por uma
infelicidade de base, ou por ele tranquilizado.
Têmo-lo presente nos versos de Silva Tavares:

OUTRO VIRÁ!

Barco sem rumo, bússula sem norte,
desço ao fundo de mim, comigo a sós,
e através do silêncio quase - morte
soa-me estranha a própria voz.

No espelho do que fui, busco entender
o que me tenta mas que não desejo.
Que frio medo é este de me ver
melhor do que me vejo?

Barco sem rumo, bússula sem norte,
navego àquem de mim - não me transponho.
Seja quem for, outro virá que aporte
à ilha do meu sonho!

Outro virá de esperança a alma cheia
refulgente de graças e visões,
dar sentido e clareza à densa teia
das minhas obsessões.

Outro virá, seja quem for, amado!
E, nas brumas do ser límpido e forte,
vingará meu presente sem passado
- barco sem rumo, bússula sem norte.

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