O Misantropo Enjaulado

O optimismo é uma preguiça do espírito. E. Herriot

Wednesday, December 27, 2006

A Novidade da República

.

A 27 de Dezembro de 1917 assumia Sidónio Pais a Presidência da República, formalizando a presidencialização revolucionária da Forma de Estado, na práctica já decidida desde a chefia da junta e do governo, datadas de 8 e 12 do mesmo mês, respectivamente. Querem alguns apaixonados pelo comparativismo histórico que se trate de uma experiência portuguesa de "pré-Fascismo". A meu ver, sem razão. Não se tratou de levar um partido a conquistar o Estado. Sidónio vinha de uma das facções partidárias da República, apesar de progressivamente desiludido com as arbitrariedades dela, dominada pela máquina Costista. Nenhuma vontade de modificar o Homem num sentido de afirmação vital da Força. Nenhum expansionismo em política externa. Nenhum belicismo, na acepção capacitária, essencial à vida do Estado, pelo contrário, a vontade expressa de, progressivamente, decrescer o empenho numa guerra que nada dizia de bom ao Povo e apenas servia os Democráticos com um útil António José de Almeida a reboque. A Guerra como elemento de formação, essencial às experiências Fascista, que bradava a frustração da insuficiente recompensa de um vencedor menor, e Nacional-Socialista, que aspirara os inconformismos contra uma derrota decidida não no campo de batalha, mas na turbulência revolucionária interior, não tinha aqui papel do mesmo relevo. Os veteranos da frente ainda por lá andavam, sem rotação, equipamento ou comando que se vissem. E quereriam tudo menos preparação para novas lutas.
Julgo que o paralelo que cega alguns dos observadores residirá no apoio que alguns dos que ficariam na história como Futuristas deram a Sidónio,tal como Marinetti ao primeiro Mussolini. Mas foi completamente diversa a atitude: enquanto em Itália se procurava ua contestação total do modo de ser burguês, prolongado no Mundo criativo pelos academismos, cá a adesão intelectual dos embrionários transformadores estéticos era a ponte mítica para o cumprimento dum «carácter nacional» que viam depender de uma figura Desejada e, porque encoberta, de vulto impreciso e latamente preenchível.
Sidónio reunia todas as condições. Para a esmagadora maioria da População era a promessa de uma tranquilidade consensual, acabando com as perseguições religiosas, querendo chamar os Monárquicos ao seio da colaboração com o regime, em vez de os apontar como criminosos, prometendo não intensificar os recrutamentos. O Homem que a corporizou vinha da Universidade e era militar, as instituições que davam políticos. E, bem apessoado, idolatrado pelas Mulheres como só D. Miguel antes dele fora, nunca seria um erro de casting para D. Sebastião do Século XX e com mais sorte do que o Primeiro. Infelizmente, todo esse capital de esperança não previu o que, no entanto, era previsível - que uma solução não-dinástica, não-descentralizadora e jogando, mais alargadamente embora, o jogo partidário, encontraria, por força, uma Alcácer-Kibir. Foi na Estação do Rossio. O engano não estava no elenco, mas sim no argumento.
Caiu o pano.

10 Comments:

  • At 11:27 AM, Blogger FSantos said…

    «(...) tal como Marinetti ao primeiro Mussolini» - Marinetti apoiou Mussolini até ao fim, chegando a combater, já sexagenário, na Frente Leste!

     
  • At 11:57 AM, Blogger Paulo Cunha Porto said…

    Mas, como sabes, já tinha de desistido de impregnar o Fascismo da condução pelos valores Futoristas, acomodando-se... academicamente à coligação que arregimentou os Fascii, os Garibaldinos, primeiro, e outros Nacionalistas, mais tarde, sob o Partido Nacional-Fascista. Aliás, nos anos 1930´s, as entrevistas que dava sobre política sublinhavam sempre o seu papel na instauração do regime, que chegava a dar como filho, subvalorizando-se na evolução e alargamento do mesmo.
    Abraço.

     
  • At 2:52 PM, Blogger JSM said…

    "E Vós, ó bem nascida segurança da Lusitana antiga liberdade e não menos certíssima esperança do aumento da pequena Cristandade..."!
    Sidónio nunca podia representar aquela realidade e este sonho. Por isso o seu Alcácer Quibir não deixou saudades nem remorsos.
    Nisso Você tem razão.
    Um abraço e parabéns pela excelente descrição.

     
  • At 3:20 PM, Anonymous Anonymous said…

    Excelente texto meu caro amigo! È por demais evidente que Sidónio Pais não protagonizou nenhum tipo de pré-fascismo. Também neste país qualquer coisa é apelidada de tal...

     
  • At 3:50 PM, Anonymous Mancha Negra said…

    Só faltou falar na simpatia de S. Pais pelo Império Alemão, onde foi ministro, que, segundo muitos, terá provocado o correspondente pacifismo.
    Melhoras.

     
  • At 7:49 PM, Anonymous Carlos Portugal said…

    Caríssimo Misantropo: creio que Sidónio foi talvez o único presidente da República com verdadeiro sentido de Estado. Não era um político fanático como os republicanos, nem um saudosista de benesses como certos monárquicos de título recente; era um académico (matemático, por sinal), um professor, diplomata e militar. Um homem que se preocupava com o País como nenhum outro antes dele na desditosa república. Alguns idosos ainda recordavam o seu hábito de correr os bairros pobres de Lisboa, acompanhado de um ajudante-de-campo, de caderninho na mão, a anotar as necessidades dos mais carenciados, para depois vir um camião fornecer alimentos e roupas.

    E a Sopa do Sidónio, ali aos Anjos, ainda mitiga a fome e a miséria a muita gente, nos dias de hoje.

    Tentou travar a derrocada social de um País que se via a braços com políticos fanáticos e interesses corruptos; encheu as cadeias de tiranos, de banqueiros e usurários. Por isso foi apelidado de «pre-fascista»... Mas quem lhe chama isso - ainda hoje - são os mesmos que apoiam os desmandos anti-nacionais dos desgovernos que temos tido.

    Tem contudo plena razão o meu Caro Misantropo, no seu excelente texto: havia um Alcácer-Quibir no fim da linha; como parece haver para todos os que, nesta Pátria, tentam dedicar-se a Ela e ao seu Povo, de corpo e alma.

    Tal como D. Sebastião, que foi, malgrado a opinião de muitos historiadores que seguiram a linha iníqua de António Sérgio, um dos maiores reformadores que Portugal teve. As Ordenações Sebásticas, fechadas a sete chaves na Torre do Tombo, são de uma abrangência e valor tais que mereciam um estudo aprofundado. E o próprio rei orientou pessoalmente a elaboração de muitas das ditas leis. Isto para não falar nas padronizações de pesos e medidas, já tentadas por D. Manuel e que apenas tiveram êxito com D. Sebastião.

    Mas Alcácer-Quibir, e a traição de muitos que levaram lá o soberano, estava já no guião, imposta pelos interesses inconfessáveis de quem manipula o poder nas sombras.

    Sidónio Pais foi principalmente um Homem Bom, que as maquinações dos «powers that be» abateram cobardemente, como ainda - e sempre - usam fazer. Não terá representado o sonho áureo, ou a grandeza que o Caro Jsm refere, mas foi uma luz no meio de uma época de trevas.

    Tanto em 1578 como em 1918. Como agora. «Quando é o Rei, quando é a Hora?»

    Um grande abraço, e parabéns pelo excelente texto.

     
  • At 8:37 PM, Blogger Paulo Cunha Porto said…

    Obrigado,meu Caro JSM.
    Pensava que poderia contar com a Sua aprovação, apesar da boa vontade do que Pessoa chamou Presidente-Rei. Mas o primeiro termo estragava tudo...

    Obrigadissimo, Meu caro Capitão-Mor. É bem verdade o que diz, apesar de já termos vivido tempos piores. Até já apareceu um maduro a crismar como tal o misantropo, calcule!

    Meu Caro Mancha Negra:
    Não sei se teria sido asim tão influente, afinal durante a República Nova o CEP não foi retirado unilateralmente. E a falta de entusiasmo pela participação portuguesa era generalizada, fora dos emocráticos e "compagnons de route".
    Obrigado.

    Obrigadíssimo, Meu Caro Carlos Portugal, não tenho dúvida de que Sidónio era um Homem Bom e, como diz, com grande preocupação com os carenciados, os que referiu e o Operariado em geral, a favor do qual tentou legislação que ajudasse, depois das marretadas que haviam sofrido pelos costistas. António Sardinha e Xavier Cordeiro, vendo isso mesmo, não hesitaram em, parlamentarmente, colaborar com ele. Claro que os detractores continuarão a dizer que eram medidas de fachada, como a clamar que verificar diferenças é encobrimento. Que fazer? É um fado. Como esse outro que refere, de cada tentativa séria para melhorar Portugal esbarrar numa morte precoce. Por isso também Salazar merece admiração, já que conseguiu inverter o que parecia ser uma fatalidade.
    Obrigado pelas Suas palavras amigas.
    Abraços a Todos.

     
  • At 10:21 AM, Blogger FSantos said…

    Meu caro Paulo, acho que devíamos tentar convencer o nosso leitor comum Carlos Portugal a criar um blogue. É uma pena ver limitado o seu conhecimento, a sua cultura e o seu amor pátrio aos comentários de blogues alheios. Que me dizes?

     
  • At 5:56 PM, Blogger T said…

    Herdei da minha Avó Amélia, senhora de grandes paixões, inúmeros postais e retratos de personagens históricos: entre eles Sidónio Pais e Napoleão Bonaparte.
    Acho que gostaria de ler mais sobre quem foi e o que representou na época Sidónio Pais. Vi nas Ilustrações Portuguesas o trabalho de campo que ela fazia, inaugurando inúmeras sopas de pobres e sobretudo, tomando contacto com a realidade social vigente.
    Escrevam mais se faz favor. Obrigada.

     
  • At 10:49 AM, Blogger Paulo Cunha Porto said…

    Ora, Caríssimo FSantos, não quero eu outra coisa. Já tentei aliciá-Lo com dedicatórias de "posts", só me resta envergonhá-Lo. E isto para veres como sou desinteressado: que temo vir a perder em frequência de comentários, quando o Imenso Talento e Saber Dele estiverem alojados em causa própria. Aliás, que é uma pena esta não existir já tinha comentado com o Internauta Descerebrado.

    Querida T:
    Dá-me uma ideia excelente para um "post", sobre a obra social de Sidónio. vou pensá-lo, pois.

     

Post a Comment

Links to this post:

Create a Link

<< Home

 
">
BuyCheap
      Viagra Online From An Online pharmacy
Viagra