Leitura Matinal -281
Há um remorso maior que todos: o de atempadamente se não ter
proferido as palavras que se impunham, deixando falar somente a Outra boca, no doentio temor da escravização pelo que se pudesse dizer. Só quando irremediavelmente passado todo o fogo, se recorre à poesia para, mais alto do que teria sido necessário, se a tempo e horas, e impotentemente na retribuição, deixar a marca indelével
da fala e do sentir que corresponde à mais doce e ansiada das servidões. É o contraste doloroso entre um sentimento que se manifesta algo postumamente e a possibilidade vital da dádiva recíproca em termos equiparáveis, que deixa bem claro para todos a aparência de um aproveitamento pouco digno, cujo arrependimento assalta
na precisa medida em que a ocasião perdida de uma vida já nem resgatada pode ser pela memória, cuja falibilidade, real ou fingida, substitui, como obstáculo, a citada falta. Resta então o poema, deposição de coroa junto do Destinatário Desconhecido, construção e homenagem que obrigam à participação de todos e substituem o íntimo pela proclamação.
De Alphonsus de Guimaraens Filho:
Aqui venho depor uma palavra
que alguém me segredou, mas onde e quando?
Eu sei apenas que alguém falava.
E eu ficava escutando.
Aqui venho depor um sentimento
que é silêncio, talvez.
Eu nada sei senão que vibra ao vento
distante e tormentosa lucidez.
Deixo latejar uma palavra
que não foi minha, mas vivi.
A vida quase que se revelava...
Onde e quando, esqueci.
Com «Escutando», David George, «Sentimento»,
de Mara McWilliams e «Na Aurora silenciosa»,
de Nancy Schieman.
proferido as palavras que se impunham, deixando falar somente a Outra boca, no doentio temor da escravização pelo que se pudesse dizer. Só quando irremediavelmente passado todo o fogo, se recorre à poesia para, mais alto do que teria sido necessário, se a tempo e horas, e impotentemente na retribuição, deixar a marca indelével
da fala e do sentir que corresponde à mais doce e ansiada das servidões. É o contraste doloroso entre um sentimento que se manifesta algo postumamente e a possibilidade vital da dádiva recíproca em termos equiparáveis, que deixa bem claro para todos a aparência de um aproveitamento pouco digno, cujo arrependimento assalta
na precisa medida em que a ocasião perdida de uma vida já nem resgatada pode ser pela memória, cuja falibilidade, real ou fingida, substitui, como obstáculo, a citada falta. Resta então o poema, deposição de coroa junto do Destinatário Desconhecido, construção e homenagem que obrigam à participação de todos e substituem o íntimo pela proclamação.
De Alphonsus de Guimaraens Filho:
Aqui venho depor uma palavra
que alguém me segredou, mas onde e quando?
Eu sei apenas que alguém falava.
E eu ficava escutando.
Aqui venho depor um sentimento
que é silêncio, talvez.
Eu nada sei senão que vibra ao vento
distante e tormentosa lucidez.
Deixo latejar uma palavra
que não foi minha, mas vivi.
A vida quase que se revelava...
Onde e quando, esqueci.
Com «Escutando», David George, «Sentimento»,
de Mara McWilliams e «Na Aurora silenciosa»,
de Nancy Schieman.
4 Comments:
At 3:36 PM, Viajante said…
Assumida e repetidamente, devíeis ser condecorado pela "Leitura Matinal" :)
Remorso ou arrependimento?
E, sim, o íntimo trocado pela proclamação, após ter-se esvaído a força anímica e ficar a lembrança. E o remorso arrependido do(s) gesto(s) e da(s) palavra(s) fora do tempo vivo. Resgatada, nãopela memória, como afirmais, mas apenas pela possibilidade de perdão.
beijo, adejando as asas
At 4:11 PM, Paulo Cunha Porto said…
Mais do que a Torre e Espada, a Condecoração Maior é a Vossa Atenção.
Adejando? Espero que o gesto Vos não impeça de poisar...(r)
Tocais, como sempre, no ponto essencial. O perdão. Mas a minha interpretação, pessimista e misantrópica como sempre, compaginava uma situação em que, para o Autor, essa redenção já não aparecesse como possível.
Prometendo voltar a reflectir sobre o dado, em função do Vosso esvoaçar.
Bj.
At 5:02 PM, Viajante said…
Já decidi da condecoração... (risos), em sede própria.
A Vossa interpretação (lunar?) e a Minha (solar?) podem sempre conciliar-se, que mais não seja no espírito inquisidor.
O poder de prometer e o poder de perdoar talvez sejam as únicas formas de exceder, ou melhor, superar a(s) precaridade(s).
Esperarei pelo repensar, que o esvoaçar andou pela vossa Construção.
Bjs e risos, que o Misantropo sorriu-se.
At 9:12 PM, Paulo Cunha Porto said…
O lunar e o solar momentaneamente trocados?. Mas sim, pela sombra que atravessa a minha destilação do poema.
Pensei, E surgiu o misantropo no seu pior, com vontade tremenda de ser mau: a brandida falta da memória, real ou conveniente, será merecedora do perdão?
Sei, entretanto, por experiência, que a Vossa generosidade é ilimitada, radiosa... como o Sol.
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